9 de setembro de 2008

educação domiciliar no brasil: uma educação com base religiosa

o ensino em casa, ou homeschooling, é uma forma de educar muito em voga em países de primeiro mundo. nela, tutores ou pais ensinam, em casa, o currículo escolar padrão e mais alguns outros assuntos de seu interesse. nos estados unidos, essa modalidade de ensino está bem regulamentada. aqui no brasil, temos poucos casos práticos, sendo que um deles ganhou atenção na mídia recentemente; um casal, ao educar em casa seus filhos adolescentes, foi processado criminalmente por 'abandono intelectual' e está às voltas com formas de provar (via avaliações escolares oficiais) que seus filhos estão recebendo a instrução básica que supostamente receberiam se estivessem frequentando uma escola qualquer.

talvez motivado por esse episódio, tramita um projeto de lei que visa permitir legalmente o ensino em casa, visto que na constituição, no estatuto da criança e do adolescente, e na lei de diretrizes e bases da educação, a educação escolar não é apenas um direito - é uma obrigação. é por isso que esses pais estão respondendo processo criminal, situação que seria absurda em outros países.

a educação em casa não é novidade de fato; é a mais antiga modalidade de ensino que existe. antes das escolas, haviam os tutores e o conhecimento se transmitia primeiro em casa, e depois em liceus de ofícios específicos, como artes, ourivesaria, etc. ao longo da história, a educação foi passando do domínio dos pais e da comunidade menor, para o domínio do governo, que, sob o título de 'garantir direitos e oportunidades iguais a todos', acabou por desautorizar qualquer outra forma oficial de aprendizado que não seja via escola.

atualmente, os maiores defensores do ensino domiciliar, não apenas aqui no brasil, como tbm nos outros países, são pessoas, grupos ou entidades que pretendem resgatar valores religiosos no ensino da criança. o discurso desses grupos passa pela inevitável constatação da degeneração do ambiente social escolar, permeado de violência, drogas e outros comportamentos que eles julgam condenáveis, e assumem para si a retomada de controle da educação de seus filhos.

os principais argumentos contra a educação domiciliar residem no isolamento e sectarismo que ela supostamente proporcionaria, pois muitos ainda enxergam na escola a função de socialização das crianças, além da (aqui no brasil principalmente) nivelação de oportunidades para todas as classes sociais.

como pagãos, reconhecemos o direito que todos os pais, de todas as religiões, têm de dar a seus filhos uma educação baseada em seus valores, ética e princípios. defendemos a tolerância religiosa, e no dia a dia, enfrentamos situações em que nossas crianças são forçadas a rezar o pai nosso antes da refeição ou ouvir o último sucesso evangélico na escola. não é apenas isso que nos preocupa. o consumismo, a superficialidade, a cultura do descartável, são hábitos que tentamos banir de nosso dia a dia, e nessa tarefa, muitas vezes batemos de frente com as escolas.

por outro lado, pagãs ou não, poucas são as famílias brasileiras que poderiam dispor de condições financeiras para pagar um tutor ou mesmo que um dos pais deixasse de trabalhar para proceder à educação integral das crianças da casa. parece algo impensável ou mesmo impossível. para muitos outros, permanecer com os filhos o dia inteiro e ainda ter que ensinar conteúdos de física e geografia pode soar pior do que um emprego. são muitos os obstáculos para um ensino domiciliar consistente aqui no brasil.

entre todas as discussões, o que mais me agrada na educação domiciliar, é o caráter de autonomia das pessoas em relação aos conhecimentos disponíveis no mundo atualmente. essas são pessoas (religiosas ou não) que decidem que o conhecimento e a educação das crianças não deve ser propriedade dos cientistas, dos doutores, do governo. essas pessoas não têm medo de ensinar a seus filhos a sua versão particular de mundo, ou o que lhes interessa. é preciso coragem pra entrar num movimento que é, prioritariamente, contra a globalização, contra a homogenização e o nivelamento de todos numa formação única. sectaristas ou não, essas são pessoas que estão assumindo que o que seus filhos serão, depende apenas deles, e não do governo ou de qualquer outra instituição. essas são pessoas que, certas ou erradas, não têm dúvidas sobre o que fazer com a educação de seus filhos.

finalizando, penso que o medo de sectarismo é infundado, afinal vemos diariamente manifestações de profunda intolerância entre pessoas que viveram toda a vida em escolas e em sociedade. já deu pra ver que a escola, nos moldes em que está fundada, não ensina valores ou respeito; no máximo, ela propicia um tipo de 'indiferença', um desinteresse diante dos valores alheios, e na minha opinião pessoal, é exatamente essa indiferença que move a violência ou a intolerância.

imagine uma comunidade pequena, onde cinco ou seis crianças da mesma idade passam várias horas juntas, olhando mapas, plantando na horta, desenhando, fazendo contas ou mesmo assistindo algum programa de tv juntas. como pertencem à mesma comunidade, elas aprendem a se respeitar, pois se encontram assiduamente fora das 'aulas'. como pertencem a famílias diferentes, elas aprendem que em cada casa há uma regra, um jeito de viver, e que a convivência pacífica entre esses vários diferentes válidos é essencial pra não deteriorar a comunidade. elas aprendem a depender umas das outras, ao mesmo tempo em que valorizam suas diferentes habilidades. pode ser utopia, pode não funcionar na prática, como saber sem tentar? a educação domiciliar pode ser uma forma de trazer movimento e evolução ao nosso já decantado sistema escolar.


(anfibia é pedagoga, mãe, pagã e sonhadora, mas não sou a única!)

4 comentários:

Green Womyn disse...

Bom, o homeschooling é muito comum mesmo nos EUA. Conheço algumas pessoas (a maioria delas pagãs ou naturalistas) que o fazem.

Não sei se entendi bem seu texto, mas, no último parágrafo, creio que vc não defendeu nem a escola "comum", nem o homeschooling, mas escolas comunitárias, como a Waldorf.

É isso ou entendi errado?

Também creio ser este um bom meio-termo entre ambas as opções, mas ainda há um longo caminho pela frente para a construção de um modelo semelhante, visto que as escolas Waldorf, até onde eu saiba, são pagas (caras) e localizadas a uma boa distância umas outras - em São Paulo, a maioria está na Zona Sul.

Bom, acho que já comentei demais... (rs)

Joana disse...

Sou profissional da área da educação e sou a favor do ensino em casa, assim como também sou a favor de escolas de qualidade e que visem o lado humano e o desenvolvimento pleno das crianças e não a sua preparação para o "mercado de trabalho".
Acredito que os pais tem que ter o direito de escolher pois eles é que sabem melhor do que ninguém, ou deveriam, mas já é outra história, o que é ideal para sua família.
Devemos discutir sim novas formas de ensino e educação pois os moldes do mundo em que vivemos até hoje já estão defasados.
O ideal para mim neste momento, se eu tivesse filhos, seria o ensino em casa sim, não só pq sou da área, mas por acreditar que a escola não é a única responsável pelo processo de "socialização", há muitas opções. E convenhamos que a escola faz bem menos, muito menos que sociabilizar nossas crianças...
Muita Luz.

Bruma a amiga das fadas disse...

Amei muuito!
Parabéns pelo blog, continuo vindo aqui sempre.

Um suave bater de asas da amiga das fadas.

Carina Corr disse...

Como mãe recente e pagã, e por saber da existência de homeschooling no reino unido através da comunidade druídica de lá, há algum tempo tenho pensado sobre o assunto, mas não sabia da regulamentação ou não dessa prática no Brasil. O fato desse post ter aparecido justo agora foi uma grata surpresa! Gostaria de saber mais sobre o assunto, e para isso gostaria de saber qual o número do projeto de lei, para poder acompanhar sua tramitação.

Parabéns pelo texto, vou indicar para algumas amigas, mães pagãs também!

Abraço,

Carina