6 de junho de 2008

maternidade: bem vinda à fase 2 do jogo

penso que nada se compara à maternidade enquanto oportunidade para a mulher se desvincular dos modelos femininos únicos ou padrões sociais de independência e beleza, por exemplo.

a maternidade empurra a mulher a se distanciar um pouco dos arquétipos ártemis/atena (solteiras lindas, durinhas, bem sucedidas e independentes) já bem assimilados pela sociedade capitalista/ patriarcal, por força de sua própria necessidade de partilhar os ofícios maternos. a maternidade é uma porta aberta para que a mulher desenvolva conceitos maiores de coletividade e solidariedade, pois modifica a forma como a mulher lida com dinheiro, modifica sua disponibilidade para ser produtiva numa sociedade capitalista, e desperta necessidades que não passam por nenhuma loja de shopping, profissão ou sala de aula.

a maternidade trabalha conexões com as mulheres da família ou arquétipos femininos de mães e avós; facilita o contato com as heranças psíquicas e a mulher se posiciona mais claramente diante de valores e crenças. a mãe faz uma leitura de mundo para dar à sua criança. ela faz um retrato, uma síntese de si mesma amalgamada com o mundo, e é basicamente isso que estão perdendo as mulheres que são tristemente forçadas a colocarem seus bebês de quatro meses na creche o dia inteiro para voltarem ao trabalho, consoladas pela idéia ilusória de 'tempo de qualidade' com a criança. a forma capitalista de lidar com a maternidade, desempodera (pra usar um termo atual) a mulher de sua função mais crucial que é a de legislar (vetar, aprovar, modificar) o mundo, através da sua mediação ativa e constante entre este mundo e sua criança.

minha experiência ao me tornar mãe, foi similar à de perséfone descendo ao mundo avernal. eu estava lá, funcionando no mundo externo, trabalhando, morando sozinha. mas procurava um amor, com a mais pura das intenções, como perséfone procurando uma flor branca pra cheirar nos campos ensolarados. então o chão se abriu e encontrei bem mais do que estava desejando! engravidar e me tornar mãe me empurrou imediatamente para um gueto social, para uma situação de desprestígio e isolamento que foi o maior impacto da minha vida. o bonito é que, como no mito, minha descida aos infernos pôde frutificar; não fiquei lá chorando o status derramado. e agora estou aqui, desse outro lado, encontrando pessoas que, como eu, descobriram que existe vida após o patriarcado, além dos empregos de 80 horas semanais, e além do universo que as revistas Nova ou Claudia ousam retratar.

estudando a história do mehndi, a belíssima pintura corporal de henna retratada acima, encontrei relatos de culturas onde a mulher é pintada no pós parto e por causa disso não pode fazer tarefas domésticas ou cuidar das outras crianças, mobilizando assim todas as mulheres da comunidade em torno de si durante esse período. a pintura significa resguardo físico e energético para um pós parto onde a mulher recebe ajuda e é protegida por outras mulheres, para iniciar essa nova fase. já eu, aqui no avançadíssimo ocidente, tive que ouvir um sermão dos meus tios falando pra deixar meu menino chorando enquanto eu almoçava, pra ele aprender a respeitar meus horários! um ótimo conselho, mas que me pareceu uma diretriz absurda para lidar com um bebê que tinha nascido no dia anterior... um pouco de sorte, e a nova mãe logo percebe que se der ouvidos aos homens em volta, vai fazer besteira.

a mãe aprende a ouvir ela mesma independente da opinião dos outros, mesmo que esteja sem nenhuma razão aparente. nesse aspecto a maternidade se assemelha a um treino de guerrilha, de resistência, de respeitar o sentido que apenas ela vê. por isso é essencial que as mães se encontrem, se ajudem, criem uma rede de suporte privada, isto é - fora das convenções sociais, fora dos valores que o patriarcado nos ensina. nosso valor como mãe não está dado pelo mundo - nós mesmas é que o descobrimos no segredo do nosso ventre e do nosso coração.

8 comentários:

Espartana disse...

tenho mta vontade de ser mãe. gostei da lembrança de perséfone, embora ela seja sempre vista como a filha e não como a mãe deméter. realmente ser mãe deve ser passar parte do tempo com uma realidade visível e outra parte do tempo com uma realidade oculta...
abraços

Green Womyn disse...

Ler a Celia é SEMPRE um prazer!

Filhote de Lua disse...

Vou ser obrigada a ser um pouco advogada do diabo. Acho que foi preconceituoso contra as mulheres que decidem não ter filhos e que são muito perseguidas pela sociedade que nos força na direção de um ideal materno impossível de conseguir, e que coloca como única utilidade da mulher ter filhos. Em alguns circulos sociais restritos, grupos de amigos, por exemplo, existe sim um pavor de ter filhos, justamente porque essas pessoas sem filhos se vêem ameaçadas, achando que é impossível ser mãe/ pai e continuar sendo você mesmo.

Acho justo a sua experiência, mas eu não acho que as coisas que a maternidade nos tráz sejam conseguidas unicamente com ela. Foi dentro dos caminhos acadêmicos que encontrei mulheres com que enxerguei linhas de ancestralidade e conexões, através do intelecto. QUe me ensinaram a ser mulher, a compreender as outras fêmeas.

Ser mãe foi um caminho solitário, de enfrentamento e combate, e não houve mulheres para desenvolver esse tipo de elo, exceto aquelas que já haviam se juntado a minha matilha pelo intelecto. E mesmo assim, minha peregrinação foi solitária, fomos eu e meu parceiro contra uma sociedade, suas convenções e tudo que se espera arquetípicamente das mães.

Concordo totalmente que o capitalismo é nefasto e que é uma luta importante. A Nestle matando crianças pelo mundo que o diga.

Só acho que quando se trata de maternidade, toda generalização é perigosa. Porque exclui o valor das experiências diferentes das nossas.

Aquilo que uma aprende sendo mãe, outra aprende sendo irmã, e outra ainda aprende sozinha com seus cachorros ou gatos. E aquilo que cada mulher sente é seu aprendizado único e seu, porque cada mulher tem seu próprio caminho, e vai aprender em escolas difrentes...

Luciana Onofre disse...

Ser mãe é um exercício infinito de paciÊncia, de auto-controle, de equilibração.
Entendo o ponto de vista da Sarah.
Me peguei muitas vezes antes de ser mãe num misto de desejo e medo.
De ser ou não ser.
Eu admiro quem diz sentindo que é realizada sendo mãe. Quem é feliz com esse papel apenas.
Entre tanto, há tantos outros espaços que podem tmb realizar.
Eu digo que criou a cria para o mundo. Por que não os quero como fui condicionada: a manter uma postura reverencial e de constante agradecimento por que minha mãe se dedicou exclusivamente à maternidade.
Minha irmã é uma dessas mulheres que decidiu não ser mãe, entre os motivos está o medo, o pavor, de não ser boa plenamente.
A admiro por assumir isso, por decidir assim sem ceder às pressões.
Lembro que recém-casada, eu detestava encontrar a família dele, pq sempre me cobravam a maternidade.
Sou feliz sendo mãe, mas não apenas sendo mãe.
Amo meus dois filhos.
Quero o melhor do mundo para eles.
E os quero o melhor possível para contruir o mundo.

Beijos!

Luciana Onofre

eu sou anfibia disse...

querida filhote de lua,

compreendo o que diz, mesmo porque fui mãe aos 32 anos, depois de muita militância feminista e depois de andar muito em outros caminhos.

não desprezo as outras formas de chegar ao sagrado, em absoluto. estive nelas antes de ser mãe. estou apenas explicando que a maternidade é uma iniciação física a algumas questões. isso não invalida a iniciação intelectual ou emocional em outros níveis.

a maternidade não é melhor nem pior do que qualquer outro caminho. eu apenas acredito que esse é um caminho que obriga vc a confrontar algumas coisas, ao contrário de outros, mais solitários, em que temos mais liberdade pra mudar de idéia. em outras palavras, o caminho da maternidade é como cair num buraco escuro onde vc não pode escolher outra coisa no meio da queda. sozinhas, a gente sai da faculdade, larga emprego, mas o filho a gente jamais larga pela metade. é esse o diferencial da maternidade, passar por coisas simplesmente porque vc não pode virar as costas. nada antes de ser mãe me impediu de largar; agora eu fui obrigada a parar de largar. essa é a diferença que aconteceu na minha vida.

seja muito abençoada.

Luciana Onofre disse...

Isso amada Celia, colocas aqui exatamente o que me ocorreu:
largasse tudo menos ser mãe!!!

Agora, aos 38 estou retomando o caminho acadêmico!!!


Te dolo!

Anelise Molina disse...

Uau! Grande texto. Parabéns!

([salix sam]) disse...

Achei lindo o texto e os comentários. Eu não sou mãe ainda...não sei se um dia serei. Mas acredito que a maternidade seja (ou pelo menos deveria ser) um evento que une as mulheres como num clã, de ajuda mútua, de apoio mútuo, de transmissão de conhecimento, carinho, rituais, etc.

Voltando ao mehndi, eu fiquei fascinada com essa antiga tradição feminina! tanto é que comecei a pesquisar sobre, e descobri coisas incríveis e maravilhosas^^

Seu blog está lindo demaaaaaaais!
Um beijão