9 de maio de 2008

Deus castiga?





Por Ana Marques

O menininho voltava da escola, cabisbaixo. Seu rosto refletia muita preocupação.
Parou para falar com as flores de um jardim, como sua mãe o havia ensinado a fazer.
- Florzinhas, Deus castiga?
As florzinhas adoravam aquele sol doce da tarde e olharam sem entender a tristeza do garoto.
- Ah! Florzinhas... minha amiguinha na escola disse que Deus castiga se eu fizer coisa errada, se eu não rezar para ele de noite, se eu não fizer tudo que ele manda.

- Estou com medo desse Deus que castiga.
As florzinhas, compreensivas, balançaram suavemente para lá e para cá, mostrando que não.

Mas o menino continuou com dúvidas.
Ele caminhou mais um pouco, viu árvores grandes, de cascas grossas e raízes profundas. Pensou que elas deveriam saber muito e resolveu conversar com elas, como seu pai havia ensinado.
- Árvore, você é grande, enxerga mais do que eu, responde: Deus castiga?
- Deus castiga se eu converso com você? Se meus pais são diferentes?
- Sabe, estou com medo desse Deus. Acho que ele tem raiva de mim.

A árvore, penalizada, balançou suavemente para lá e para cá, mostrando que não. Caíram folhas na cabeça do menino, mostrando que elas eram todas um pouco diferentes e todas podiam cair ou ficar na grande árvore.

Mas o menino continuou com dúvidas.

Ele caminhou mais um pouco e ao longe viu grandes nuvens escondendo e mostrando o sol. Estavam brincando de esconde-esconde! Não! Estavam formando desenhos! E ele resolveu conversar com as nuvens e com o sol, como sua madrinha o havia ensinado.

- Sol, você está no alto. Vê tudo, ilumina, e como a madrinha sempre me fala, faz com que tudo nasça. Sol, Deus castiga porque não sou cristão? Deus castiga porque eu não fui batizado?
- Nuvens, vocês passam, escondem o sol e o mostram de novo, formam desenhos bonitos e trazem chuva. Nuvens, Deus castiga porque eu não acredito nele desse jeito que minha amiguinha falou que ele é? Deus castiga porque colocamos chifres nele?

As nuvens docemente se movimentando para cá e para lá e o brilho do Sol diziam que não. O calor suave do Sol esquentou algumas partes, depois outras do corpo do menino, e ele viu que não haviam preferidos, que o sol tocava a todos sem distinção.
Mas o menino continuou com dúvidas.

E veio a bola, colorida e vibrante, rolando alegremente.
O menino a viu e olhou-a, esperançoso:
- Bolinha, Deus castiga? Deus castiga porque a gente acredita na Deusa?
A bola, quase indiferente, continuou rolando.Rolou, rolou, rolou.

E o menino ouviu uma voz:
- Ei!
Ele se virou.Um outro garoto o fitava, rindo.
- Quer brincar com a gente?O menininho pensou e respondeu:
- Quero!
- Então pega a bola! - respondeu o outro garoto.

O menino voltou os olhos para a bola e ela, debaixo daquele ameno sol de março fez coro com as nuvens, a árvore e as florzinhas, sorriu e respondeu silenciosamente para ele "Viu? Não existe castigo".

E o menino finalmente riu e correu pegar a bola para fazer o que o unia a todas as outras crianças do mundo, pagãs ou não: BRINCAR!

FIM

4 comentários:

Luciana Onofre disse...

Jamais entendi nem aceitei a culpa do pecado original...
Quando as freiras nos ameaçavam com isso, eu ficava péssima.
Como um bebê pode ser culpado por algo que uma serpente incitou a alguém milhares de anos atrás, segundo reza a lenda?

Klotz disse...

Bacana. Gostei e compactuo com a idéia que você defendeu. Não consigo entender as pessoas que se dizem tementes a Deus...

([salix sam]) disse...

É verdade....mas é preciso uma atenção especial com crianças pagãs....principalmente quando elas vão á escola. Lá é um lugar onde ensinam coisas pra elas....e algumas coisas não são boas e as perturba. Isso quando não acontece discriminação (pq criança adora uma discriminação...=/ seja q religião ou o motivo que for). Acredito que seja preciso tornar as crianças fortes não para sair batendo nos coleguinhas....mas pra conseguir enchergar que ninguem precisa ser igual a ninguem...e isso não é motivo pra brigar....mas pra brincar^^

Adorei a histórinha *-*~

Quimera disse...

Essa história é linda!
E me lembra um fato que ocorreu comigo quando criança (é engraçado, mas no dia fiquei triste!)
Eu tinha uns 8 ou 9 anos e nós morávamos com minha avó, que era católica praticante (muito praticante hehehe). E minha avó queria que eu fosse à Igreja com ela todos os domingos, as 6h da manhã. E eu sempre respondia que não queria ir.
Um certo dia ela me disse: "Se você não for pra Missa, você vai pro inferno!!!"
Eu saí correndo pro quarto dos meus pais, chorando e disse pro meu pai: "Pai... A vó falou que eu vou pro inferno!"
E ele me respondeu: "Não se preocupa, o pai vai junto e cuida de você lá, ok?!"
A partir desse dia, passei a não ter mais medo de castigos, e entendi o que era o "pecado".
Beijosss