7 de maio de 2008

Amor de Bruxa

(na foto, eu e a minha filha Ayla, não por acaso a minha Branca de Neve)


Por Ana Marques

- Mãe! Mãe! Mãe!
A menina branquinha como a neve, de longos cabelos negros como ébano e belos
lábios vermelhos como sangue, chorava sem parar e chamava pela mãe.

- Mãe! Mãe!
A mãe veio. As mães sempre vem, não é mesmo? Pegou a pequena no colo e sorriu. Acariciou os cabelos lisos da criança e ninou-a até acalmá-la. Só então perguntou:
- Minha linda, o que houve? Por que você está chorando?
A criança voltou a choramingar, dizendo entre soluços:
- Mamãe, no bosque estão contando histórias sobre a senhora, sobre mim... Falam que você é uma madrasta malvada, que me maltrata, que tenta me matar, que é vaidosa e fútil.
- Mãe... eu nem sei o que é fútil...
A menina chora mais, a mãe sorri.
- Filha, ouve sua mãe... Não vale a pena chorar pelo que você ouve por aí. Sou sua mãe, você é a minha filha... O que essas pessoas sabem do nosso amor? Da nossa cumplicidade? Das noites na frente das fogueiras? Das danças na lua cheia? Dos bolinhos assando no forno? Das maçãs carameladas em dias de festa?
- Ah... filha... as pessoas vêem apenas o que querem ver, o que compreendem. Elas não me entendem, não percebem que para ser mãe, eu não preciso ser feia ou esquecer de mim. Que para ser esposa, eu não preciso deixar de ser mulher. Não percebem que para acalentar menina tão especial como você em meu seio, eu não preciso sentir inveja ou ciúmes, porque somos diferentes e complementares. Você é a jovem cheia de energia e sem nenhuma experiência. Eu sou a mulher cheia de experiência e com a energia controlada. Um dia serei a anciã, aquela que irá te acolher nos momentos difíceis, te acalentar quando a vida te desafiar, te aconselhar quando você se sentir perdida e te respeitar pela mulher que você é assim como você me respeitará pela senhora que eu serei. Eu terei rugas e amarei cada uma delas. Você terá filhos e eu amarei cada um deles. E enquanto eu tiver forças, irei dançar nas fogueiras com você.
A mãe suspirou.
- Mas você precisa compreender que enquanto essas pessoas tiverem língua, elas falarão, e falarão o que quiserem da forma como entenderem. Elas não podem me entender porque eu não me comporto como elas, e elas também não irão te entender porque você certamente se comportará diferente dos filhos delas... Então eu sempre serei a bruxa malvada. E quando você crescer, será a sua vez.
A mãe sorriu para a menina.
- Não tenta entender tudo agora. Apenas não dê ouvidos para essas fofocas, continue brincando, buscando os amigos que você puder ter e sendo feliz apesar dos outros. Quando falarem algo, apenas ria. O riso desarma as pessoas.
E completou:
- E lembra que eu te amo.
A menina tinha parado de chorar, mas em seus sete anos de idade ainda não tinha entendido muita coisa, mas tinha se acalmado. E como toda criança, queria a liberdade do quintal, as brincadeiras e as tristezas não tinham força alguma em sua alegria. Porém, antes de ir resolveu fazer uma última pergunta:
- Mamãe... por que te chamam de "madrasta má" nessas fofocas?
A mãe riu.
- Ah, Branca de Neve! Porque eles simplesmente não conseguem alcançar a grandiosidade do amor de uma bruxa.

FIM

7 comentários:

Ishtar Imperatrix disse...

Lindooo! Me emocionei e me vi passando por isso em um futuro próximo!

Luciana Onofre disse...

Tô com lágrimas nos olhos amada!!!

Danielle disse...

Lindíssimo!

Sim, as mães sempre vêm...

Quimera disse...

Maravilhoso! Perfeito!
Sem palavras pra descrever...
Beijosss

Ana Marques disse...

Gente, vocês que me emocionaram com esses comentários.

Vocês é que são lindas. :)

Beijos em todas e um especial em cada uma.

([salix sam]) disse...

Eu também adorei a estórinha *-*~~~
Sim....a mãe que ama sempre vem...e mesmo que existam fofocas, pregações, ignorâncias e coisas para distorcer o amor de uma mãe e seus filhos....eu desejo do fundo do coração que nunca....NUNCA mesmo esse amor enfraqueça....mas que um encontre no outro seu repolso e sua festa^^

Bençãos^^
)O(

Marcos disse...

É um conto tocante mesmo, mesmo para quem não é mãe... parabéns, Ana.

A história me lembrou de outra, que tem a ver com bruxas, mas não com amor maternal.

Se eu posso fazer um comentário impertinente, recomendo "Snow, glass and apples", de Neil Gaiman, para qara quem gosta de brincar com histórias e mitos e recontá-los. O conto foi publicado no Brasil, no livro "Fumaça e Espelhos".
http://www.geocities.com/calliope_demarquis/snow.html